BUGRINHOS | Um símbolo de resistência e identidade
A arte de Conceição Freitas da Silva, conhecida popularmente como "Conceição dos Bugres", passa pela ressignificação de um termo pejorativo e se torna símbolo da luta dos povos indígenas do MS
O Mato Grosso do Sul carrega na sua formação uma mistura forte de culturas indígenas e uma história de luta pela sobrevivência numa região de fronteira com Paraguai e Bolívia. Foi nesse cenário, marcado pela marginalização e pela força dos povos originários, que surgiu uma das expressões artísticas mais singulares do estado e do país: os bugrinhos, que são pequenas esculturas de madeira que hoje são símbolo da identidade cultural local.
A palavra “bugre”, por si só, carrega uma carga pesada. Durante muito tempo foi usada de forma pejorativa pelos colonizadores e imigrantes estrangeiros para menosprezar os povos indígenas. Mas foi justamente a partir dessa palavra, através de um processo de ressignificação dentro da própria cultura indígena que nasceu uma arte que desafia as teorias modernas de arte e celebra uma estética própria, rústica e cheia de significado.
A história dos bugrinhos começa com Conceição de Freitas, conhecida como Conceição dos Bugres. Em seus relatos sobre como criou os bugrinhos, ela conta que tudo começou quando estava sentada sob uma árvore e viu uma cepa de mandioca que parecia ter cara de gente. Esculpiu aquela raiz e ao secar a peça ganhou o aspecto de uma cara de gente velha. Depois dessa primeira experiência com a mandioca, ela passou a usar a madeira como material definitivo.
Os bugres são feitos manualmente e suas peças são esculpidas a machado, machadinha e facão, com o auxílio do serrote. Depois de esculpidas, o corpo das figuras é coberto com cera de abelha, que protege e sela a madeira. Os detalhes mais específicos, como os olhos, sobrancelhas, nariz e o cabelo escorregadio são pintados com piche ou tintas escuras. A estética dos bugrinhos é contida e séria. Parecem serem todos iguais, mas cada um tem sua própria fisionomia e particularidade, uns, por exemplo, olham para cima, outros para baixo, cada um com uma expressão estática e única em cada peça produzida.
Os bugrinhos são mais que arte nesse contexto de resistência e de identidade, são símbolos da luta dos povos indígenas do Mato Grosso do Sul pela sobrevivência. Num lugar onde os saberes locais foram historicamente dizimados, esculpir e encerar cada peça é um ato de resistência e reafirmação, uma forma de proteger a identidade nativa e dizer que essa memória ainda está viva.
A tradição iniciada por Conceição não parou com ela, foi passada adiante dentro da própria família, garantindo que a arte continuasse viva e relevante:
• Abílio Freitas da Silva, esposo de Conceição, também continuou a fazer as peças, mantendo o ofício no cotidiano familiar.
• Ilton Silva, filho de Conceição, além de escultor, é artista plástico e retratou em
quadros o ambiente de trabalho e a memória da mãe, levando o legado a diante.
• Mariano Antunes Cabral Silva, neto de Conceição, retomou a linhagem e mantém a produção atualmente, mantendo viva a memória de sua Avó, expandindo os alcances dos bugrinhos e discutindo a importância da arte indígena além de uma lógica mercadológica.





Referências:
NOLASCO, Edgar Cézar (ed.). Cadernos de Estudos Culturais. Campo Grande: Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, v. 1, n. 1, 2009. https://periodicos.ufms.br/index.php/cadec/issue/view/325
NOLASCO, Edgar Cézar (ed.). Cadernos de Estudos Culturais. Campo Grande: Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, v. 7, n. 13, 2015. https://periodicos.ufms.br/index.php/cadec/issue/view/283
Raído, Dourados, MS, v. 7, n. 14, p. 185–199, jul./dez. 2013. https://ojs.ufgd.edu.br/Raido/article/download/2624/1614/8737
Revista Latinoamericana de Estudios en Cultura y Sociedad (Latin American Journal of Studies in Culture and Society), v. 3, ed. especial, dez. 2017, artigo n. 485. e-ISSN: 2525-7870.

