Existe uma constante busca por uma “versão brasileira” de dragões, centauros, ciclopes… pois são criaturas já bastante conhecidas e consideradas maneiras. Nessa procura que atravessa os tempos da internet, surgem dezenas de postagens e vídeos nas redes sociais dizendo que “existe um vampiro brasileiro no Nordeste! O nome dele é ENCOURADO, ele veste roupas de vaqueiro e é muito mais sinistro que o vampiro europeu!”
Mas de onde veio essa história?
Será que esse mito existe fora da internet?
Praticamente todos os textos da internet sobre esse “Encourado vampiro”, seja em blogs, posts ou vídeos, são uma cópia exata ou uma versão levemente adaptada de um texto da revista “Vampiros: Lendas e Fantasias, volume 2”, publicada pela Editora PEN em 1992:
“O Encourado é um homem de hábitos noturnos, que se veste completamente de couro preto e cheirando à sangria. Sua presença é dita inspirar medo e respeito. Como outros vampiros, ele só entra nas casas em que for convidado, no entanto, ele consegue arrumar um jeito de ser convidado. Ele prefere atacar pessoas que não frequentam a igreja, e além disso, ele já sabe de antemão quem são estas pessoas. Assim, ao chegar num povoado, ele já tem em mente quem procurar primeiro.
Por onde o Encourado passa, as galinhas param de botar ovos e não comem direito. Os cachorros não saem de casa e gemem o dia inteiro. Até mesmo, os urubus e carcarás, que são aves carniceiras, desaparecem para bem alto e longe. Ao pressentir sua presença, os moradores costumam sacrificar algum animal, pois acreditam que feito isso ele irá embora. Conta-se que no passado havia sacrifícios de pessoas indesejáveis, como criminosos e até mesmo de crianças. Entretanto, diz-se que basta oferecer simplesmente uma galinha preta ou galo vermelho para afugentá-lo sem, contudo, ofendê-lo. A oferenda, no entanto, deve ser pendurada na entrada principal da cidade, pois o Encourado só entra pela porta da frente.”
Neste texto, a autora Nina Balle não diz de onde colheu essa história e não existem fontes anteriores falando nada parecido. Nina, inclusive, nunca mais assinou nenhuma revista, o que nos leva a pensar na possibilidade de ser um pseudônimo, prática comum em muitas publicações do tipo.
Até existem algumas histórias de vampiro em cordéis, por exemplo, mas sem nenhuma semelhança com o texto da revista. Em compensação, várias fontes falam sobre outros usos desse termo.



Na cultura popular brasileira, o uso mais comum da palavra é para se referir à vestimenta do vaqueiro nordestino. Um “vaqueiro encourado” é um vaqueiro que está vestido e pronto para trabalhar:
“Feitosa com os Vaqueiros
estavam prontos esperando
Garcia estava encourado
seu cavalo preparando
Zulmira mais Sinforosa
da janela observando”
Cordel de João Melquíades Ferreira
Mas existe também “O Encourado”, como título ao invés de adjetivo: é o nome do Diabo na famosíssima peça “O Auto da Compadecida” de Ariano Suassuna.
“Desde que ele começou a falar, soam ritmadamente duas pancadas [...], ruído que deve se repetir até a aparição do Encourado. Este é o Diabo, que, segundo uma crença do sertão do nordeste, é um homem muito moreno, que se veste como um vaqueiro.”
O Tinhoso parece ser o único personagem fantástico na literatura realmente chamado de “Encourado”, sendo que o nome em si nem é tão comum assim. Mário Pontes, na Revista do Folclore Brasileiro, fala que o Diabo gosta de se vestir de vaqueiro, sem apelidos. Paulo Gil Soares, pesquisando causos para o seu filme “Proezas de Satanás na Vila de Leva-e-Traz”, fala de histórias do “diabo encourado” (vestido de vaqueiro), mas como um adjetivo, assim como é com os vaqueiros. Esse nome parece ser mais influência do próprio Suassuna.



O fato é que existem várias histórias do Diabo com características que a revista de vampiros trás: ele se veste de vaqueiro (roupa de couro), persegue “pessoas que não frequentam a igreja” e recebe sacrifícios ou ofertas de sangue. Se existe um “Encourado”, esse é o sete-pele!
Mas e você, já ouviu sobre um “encourado” antes?
DICA DO FOLCLORE BR!
Em 2025, realizamos um programa piloto onde o Coletivo Folclore BR se uniu para um exercício criativo cujo desafio é recriar uma obra da cultura pop internacional aos moldes da cultura brasileira. Neste teste, a VERSÃO FOLCLORE BR foi sobre o filme Nosferatu (2024) e repensamos a ideia de um “vampiro brasileiro”. Confira:
Texto e arte: Lorena Herrero (HET)
Revisão e composição: Anderson Awvas


